Laura

Laura

sábado, 6 de novembro de 2010

Dois Poemas de Borges

Nem Sequer Sou Poeira - de Jorge Luis Borges (de Histórias da Noite - 1976)


Não quero ser quem sou. A avara sorte
Quis-me oferecer o século dezessete,
O pó e a rotina de Castela,
As coisas repetidas, a manhã
Que, prometendo o hoje, dá a véspera,
A palestra do padre ou do barbeiro,
A solidão que o tempo vai deixando
E uma vaga sobrinha analfabeta.
Já sou entrado em anos. Uma página
Casual revelou-me vozes novas,
Amadis e Urganda, a perseguir-me.
Vendi as terras e comprei os livros
Que narram por inteiro essas empresas:
O Graal, que recolheu o sangue humano
Que o Filho derramou pra nos salvar,
Maomé e o seu ídolo de ouro,
Os ferros, as ameias, as bandeiras
E as operações e truques de magia.
Cavaleiros cristãos lá percorriam
Os reinos que há na terra, na vingança
Da ultrajada honra ou querendo impor
A justiça no fio de cada espada.
Queira Deus que um enviado restitua
Ao nosso tempo esse exercício nobre.
Os meus sonhos avistam-no. Senti-o
Na minha carne triste e solitária.
Seu nome ainda não sei. Mas eu, Quijano,
Serei o paladino. Serei sonho.
Nesta casa já velha há uma adarga
Antiga e uma folha de Toledo
E uma lança e os livros verdadeiros
Que ao meu braço prometem a vitória.
Ao meu braço? O meu rosto (que não vi)
Não projecta uma cara em nenhum espelho.
Nem sequer sou poeira. Sou um sonho


  Do que Nada se Sabe - Jorge Luis Borges (de A Rosa profunda - 1975)

 A lua ignora que é tranquila e clara
E não pode sequer saber que é lua;
A areia, que é a areia. Não há uma
Coisa que saiba que sua forma é rara.
As peças de marfim são tão alheias
Ao abstracto xadrez como essa mão
Que as rege. Talvez o destino humano,
Breve alegria e longas odisseias,
Seja instrumento de Outro. Ignoramos;
Dar-lhe o nome de Deus não nos conforta.
Em vão também o medo, a angústia, a absorta
E truncada oração que iniciamos.
Que arco terá então lançado a seta
Que eu sou? Que cume pode ser a meta?


Frenesi

Frenesi

A intensa juventude
Alegra-se ao amanhecer,
Verdades imagináveis,
Acima das dúvidas,
Além das incertezas,
Pirando sobre as nuvens da razão
Tormentos inefáveis,
Insensatos sofrimentos,
Em caminhos traçados sobre abismos incalculáveis
E noites inabaladas,
Noites brancas que iluminam os medos
E guiam a solidão das almas vãs. (anjinho)

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Dois Poemas de João Cabral


 Catar feijão - de João Cabral de Melo Neto ( de "A Educação pela Pedra - 1966)


Catar feijão se limita com escrever:
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco.


A Educação pela Pedra - de João Cabral de Melo Neto ( de "A Educação pela Pedra - 1966)

Uma educação pela pedra: por lições;
Para aprender da pedra, freqüentá-la;
Captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
Ao que flui e a fluir, a ser maleada;
A de poética, sua carnadura concreta;
                                     A de economia, seu adensar-se compacta:
Lições da pedra (de fora para dentro,
Cartilha muda), para quem soletrá-la.
Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
E se lecionasse, não ensinaria nada;
Lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
Uma pedra de nascença, entranha a alma.

A Beleza das Palavras de Guimarães

A Menina de Lá – João Guimarães Rosa (do Livro "Primeiras Histórias - 1962)


      Sua casa ficava para trás da Serra do Mim, quase no meio de um brejo de água limpa, lugar chamado o Temor-de-Deus. O Pai, pequeno sitiante, lidava com vacas e arroz; a Mãe, urucuiana, nunca tirava o terço da mão, mesmo quando matando galinhas ou passando descompostura em alguém. E ela, menininha, por nome Maria, Nhinhinha dita, nascera já muito para miúda, cabeçudota e com olhos enormes.
      Não que parecesse olhar ou enxergar de propósito. Parava quieta, não queria bruxas de pano, brinquedo nenhum, sempre sentadinha onde se achasse, pouco se mexia. – "Ninguém entende muita coisa que ela fala..." – dizia o Pai, com certo espanto. Menos pela estranhez das palavras, pois só em raro ela perguntava, por exemplo: - "Ele xurugou?" – e, vai ver, quem e o quê, jamais se saberia. Mas, pelo esquisito do juízo ou enfeitado do sentido. Com riso imprevisto: - "Tatu não vê a lua..." – ela falasse. Ou referia estórias, absurdas, vagas, tudo muito curto: da abelha que se voou para uma nuvem; de uma porção de meninas e meninos sentados a uma mesa de doces, comprida, comprida, por tempo que nem se acabava; ou da precisão de se fazer lista das coisas todas que no dia por dia a gente vem perdendo. Só a pura vida.
      Em geral, porém, Nhinhinha, com seus nem quatro anos, não incomodava ninguém, e não se fazia notada, a não ser pela perfeita calma, imobilidade e silêncios. Nem parecia gostar ou desgostar especialmente de coisa ou pessoa nenhuma. Botavam para ela a comida, ela continuava sentada, o prato de folha no colo, comia logo a carne ou o ovo, os torresmos, o do que fosse mais gostoso e atraente, e ia consumindo depois o resto, feijão, angu, ou arroz, abóbora, com artística lentidão. De vê-la tão perpétua e imperturbada, a gente se assustava de repente. – "Nhinhinha, que é que você está fazendo?" – perguntava-se. E ela respondia, alongada, sorrida, moduladamente: - "Eu... to-u... fa-a-zendo". Fazia vácuos. Seria mesmo seu tanto tolinha?
      Nada a intimidava. Ouvia o Pai querendo que a Mãe coasse um café forte, e comentava, se sorrindo: - "Menino pidão... Menino pidão..." Costumava também dirigir-se à Mãe desse jeito: - "Menina grande... Menina grande..." Com isso Pai e Mãe davam de zangar-se. Em vão. Nhinhinha murmurava só: - "Deixa... Deixa..." – suasibilíssima, inábil como uma flor. O mesmo dizia quando vinham chamá-la para qualquer novidade, dessas de entusiasmar adultos e crianças. Não se importava com os acontecimentos. Tranqüila, mas viçosa em saúde. Ninguém tinha real poder sobre ela, não se sabiam suas preferências. Como puni-la? E, bater-lhe, não ousassem; nem havia motivo. Mas, o respeito que tinha por Mãe e Pai, parecia mais uma engraças espécie de tolerância. E Nhinhinha gostava de mim.
      Conversávamos, agora. Ela apreciava o casacão da noite. – "Cheiinhas!" – olhava as estrelas, deléveis, sobrehumanas. Chamava-as de "estrelinhas pia-pia". Repetia: - "Tudo nascendo!" – essa sua exclamação dileta, em muitas ocasiões, com o deferir de um sorriso. E o ar. Dizia que o ar estava com cheiro de lembrança. – "A gente não vê quando o vento se acaba..." Estava no quintal, vestidinha de amarelo. O que falava, às vezes era comum, a gente é que ouvia exagerado: - "Alturas de urubuir..." Não, dissera só: - "... altura de urubu não ir." O dedinho chegava quase no céu. Lembrou-se de: - "Jabuticaba de vem-mever..." Suspirava, depois: - "Eu quero ir para lá." – Aonde? – "Não sei" Aí, observou: - "O passarinho desapareceu de cantar..." De fato, o passarinho tinha estado cantando, e, no escorregar do tempo, eu pensava que não estivesse ouvindo; agora, ele se interrompera. Eu disse: - "A Avezinha." De por diante, Nhinhinha passou a chamar o sabiá de "Senhora Vizinha..." E tinha respostas mais longas: - "Eeu? Tou fazendo saudade." Outra hora falava-se de parentes já mortos, ela riu: - "Vou visitar eles..." Ralhei, dei conselhos, disse que ela estava com a lua. Olhou-me, zombaz, seus olhos muito perspectivos: - "Ele te xurugou?" Nunca mais vi Nhinhinha.
      Sei, porém, que foi por aí que ela começou a fazer milagres.
      Nem Mãe nem Pai acharam logo a maravilha, repentina. Mas Tiantônia. Parece que foi de manhã. Nhinhinha, só, sentada, olhando o nada diante das pessoas: - "Eu queria o sapo vir aqui" Se bem a ouviram, pensaram fosse um patranhar, o de seus disparates, de sempre. Tiantônia, por vezo, acenou-lhe com o dedo. Mas, aí, reto, aos pulinhos, o ser entrava na sala, para aos pés de Nhinhinha – e não o sapo de papo, mas uma bela rã brejeira, vinda do verduroso, a rã verdíssima. Visita dessas jamais acontecera. E ela riu: - "Está trabalhando um feitiço..." Os outros se pasmaram; silenciaram demais.
      Dias depois, com o mesmo sossego: - "Eu queria uma pamonhinha de goiabada" – sussurrou; e, nem bem meia hora, chegou uma dona, de longe, que trazia os pãezinhos da goiabada enrolada na palha. Aquilo, quem entendia? Nem os outros prodígios, que vieram se seguindo. O que ela queria, que falava, súbito acontecia. Só que queria muito pouco, e sempre as coisas levianas e descuidosas, o que não põe nem quita. Assim, quando a Mãe adoeceu de dores, que eram de nenhum remédio, não houve fazer com que Nhinhinha lhe falasse a cura. Sorria apenas, segredando seu – "Deixa... Deixa..." – não a podiam despersuadir. Mas veio vagarosa, abraçou a Mãe e a beijou , quentinha. A Mãe, que a olhava com estarrecida fé, sarou-se então, num minuto. Souberam que ela tinha também outros modos.
      Decidiram de guardar segredo. Não viessem ali os curiosos, gente maldosa e interesseira, com escândalos. Ou os padres, o bispo, quisessem tomar conta da menina, levá-la para sério convento. Ninguém, nem os parentes de mais perto, devia saber. Também, o Pai, Tiantônia e a Mãe, nem queria versar conversas, sentiam um medo extraordinário da coisa. Achavam ilusão.
      O que ao Pai, aos poucos, pegava a aborrecer, era que de tudo não se tirasse o sensato proveito. Veio a seca, maior, até o brejo ameaçava se estorricar. Experimentaram pedir a Nhinhinha: que quisesse a chuva. – "Mas, não pode, ué..." – ela sacudiu a cabecinha. Instaram-na: que, se não, se acabava tudo, o leito, o arroz, a carne, os doces, frutas, o melado. – "Deixa... Deixa..." – se sorria, repousada, chegou a fechar os olhos, ao insistirem, no súbito adormecer das andorinhas.
      Daí a duas manhãs quis: queria o arco-íris. Choveu. E logo aparecia o arco-da-velha, sobressaído em verde e o vermelho – que era mais um vivo cor-de-rosa. Nhinhinha se alegrou, fora do sério, à tarde do dia, com a refrescação. Fez o que nunca lhe vira, pular e correr por casa e quintal.
      - "Adivinhou passarinho verde?" – Pai e Mãe se perguntavam. Esses, os passarinhos, cantavam, deputados de um reino. Mas houve que, a certo momento, Tiantônia repreendesse a menina, muito brava, muito forte, sem usos, até a Mãe e o Pai não entenderam aquilo, não gostaram. E Nhinhinha, branda, tornou a ficar sentadinha, inalterada que nem se sonhasse, ainda mais imóvel, com seu passarinho-verde pensamento. Pai e Mãe cochichavam, contentes: que, quando ela crescesse e tomasse juízo, ia poder ajudar muito a eles, conforme à Providência decerto prazia que fosse.
      E, vai, Nhinhinha adoeceu e morreu. Diz-se que da má água desses ares. Todos os vivos atos se passam longe demais.
      Desabado aquele feito, houve muitas diversas dores, de todos, dos de casa: um de-repente enorme. A Mãe, o Pai e Tiantônia davam conta de que era a mesma coisa que se cada um deles tivesse morrido por metade. E mais para repassar o coração, de se ver quando a Mãe desfiava o terço, mas em vez das ave-marias podendo só gemer aquilo de – "Menina grande... Menina grande..." – com toda ferocidade. E o Pai alisava com as mãos o tamboretinho em que Nhinhinha se sentava tanto, e em que ele mesmo se sentar não podia, que com o peso de seu corpo de homem o tamboretinho se quebrava.
      Agora, precisavam de mandar um recado, ao arraial, para fazerem o caixão e aprontarem o enterro, com acompanhantes de virgens e anjos. Aí, Tiantônia tomou coragem, carecia de contar: que, naquele dia, do arco-íris da chuva, do passarinho, Nhinhinha tinha falado despropositado de satino, por isso com ela ralhara. O que fora: que queria um caixãozinho cor-de-rosa, com enfeites de verdes brilhantes... A agouraria! Agora, era para se encomendar o caixãozinho assim, sua vontade?
      O Pai, em bruscas lágrimas, esbravejou: que não! Ah, que, se consentisse nisso, era como tomar culpa, estar ajudando ainda Nhinhinha a morrer...
      A Mãe queria, ela começou a discutir com o Pai. Mas, no mais choro, se serenou – o sorriso tão bom, tão grande – suspensão num pensamento: que não era preciso encomendar, nem explicar, pois havia de sair bem assim, do jeito, cor-de-rosa com verdes funebrilhos, porque era, tinha de ser! – pelo milagre, o de sua filhinha em glória, Santa Nhinhinha.



O Mais Belo Conto de Guimarães


O conto “A Menina de Lá”, de Guimarães Rosa, faz parte da obra “Primeiras Estórias”, lançado em 1962. É uma história bonita, doce, trágica, sutil e que faz o leitor revelar-se em uma emoção, em um sentimento que somente as palavras precisas, marcantes, simbólicas de Guimarães Rosa podem provocar. Um conto quer pode mesmo levar as lágrimas uma adolescente de treze anos, como presenciei certa vez, durante uma aula para uma turma de sétima série.  Após ler em sala de aula, para uma turma de sétima série. A personagem central desta história é Maria, Nhinhinha, uma pequenina de quatro anos, dotada, ao que todos crêem, por uma capacidade notável de realizar milagres, ou, por conseguir tudo o que sonha, pede, sente, deseja, no entanto, por sua idade, pelo em que vive, pela cultura de sua gente, suas palavras, seus pensamentos, por vezes, tornam-se ocultos, quase ininteligíveis – daí, a linguagem nova, revolucionária e poética de Guimarães se mostra presente Nas falas da personagem.
Nhinhinha tinha um lugar cativo no coração do narrador, que revela um gosto, um carinho especial pela menina, seu jeito doce e meigo, suas fantasias e desejos infantis, suas palavras: “altura de urubuir”, apontando o dedinho cedo para o céu, dizendo que gostaria de, também, ir para lá, falando em parentes mortos que ela desejava visitar: “Eeu? To fazendo saudade...Vou visitar eles.” O narrador, que não voltou a ver Nhinhinha, conta que, por aquele momento, a garota começou a fazer milagres, na verdade, pequenos desejos começaram a se realizar, desejos doces, sinceros, infantis, como ver um sapo, desejo acompanhado pelo surgimento de uma enorme rã verde brejeira, ou, de comer uma pamoinha, ao que chega uma senhora com uma pamonha enorme, recheada com goiabada, para deleite da menininha.
Os milagres de Nhinhinha se tornam segredos de família, mas os pais esperam algo mais da menina, desejos mais concretos, soluções para sua miséria, esperam que ela sonhe com chuvas para tornar a terra fértil, em viver uma vida melhor e menos dramática e desesperançosa, para o qual a menina dizia apenas. Mesmo quando a mãe adoeceu, Nhinhinha se mostrava irredutível em contrariar os desígnios de Deus, mas, na sua ingenuidade, desejou um abraço de sua menina grande e a mãe se curou de repente, como um milagre. E ela repetia a cada anseio de seu pai: “Deixa... deixa – se sorria repousada, chegava a fechar os olhos, ao insistirem, no súbito adormecer das andorinhas.”
Mas, ela seguia com seus desejos de criança, e pedia um arco-íris – fato que a tornou a menina de uma felicidade nunca vista, correndo, pulando sorrindo da casa para o quintal. O mesmo arco-íris, o que trazia a chuva para os confins do mundo em que vivia, atrás da Serra do Mirim, em um lugar chamado Temor de Deus, em algum ponto perdido do sertão, era um anúncio, um aviso de Deus.
Este conto, narrado em terceira pessoa, mostra-nos, em dado momento, o autor-personagem, em suas conversas com Nhinhinha, a personagem central da história, uma bela e sensível narrativa, em que o autor, dado ao título, mostra-nos que a menina de lá pertence ao mundo dos anjos, ao reino dos céus e revela, a cada milagre da personagem, a cada pequeno milagre, a ingenuidade, a pureza dos anjos, que marcam o espírito das crianças. Isso se torna claro em diversos aspectos e momentos da narrativa, sempre presentes nas falas do narrador e da personagem Nhinhinha, como lua, estrelinhas, céu, alturas, aves, mortos, saudade, milagres, a devoção religiosa da mãe, e mesmo o lugar distante e isolado chamado Temor de Deus.
Bobagem alguém querer analisar este conto sob os olhares científicos, lógicos e racionais, é a ficção, a revelação de um mundo fantasioso, de uma crença fervorosa, perene e presente no imaginário popular, no coração do sertanejo. A personagem Nhinhinha traça um perfil coletivo do homem do sertão, religioso ao extremo, temente a Deus e às coisas ligadas à sua religiosidade, de uma forma tão direta e intensa, como um homem da Idade Média, com seus temores, seus anseios, suas superstições. Uma forma de se ligar ao mundo da esperança, mesmo em condições tão adversas como as que vive perdido no imenso sertão. Nhinhinha se torna, então, a chave para os problemas de sua família, de sua gente, uma carga impossível de suportar, mesmo para uma menina dotada de condições inexplicáveis, acreditada por fazer milagres, mas presa a um mundo de fantasia, que rege toda a infância, por mais duras que se mostrem as condições em que vivem. Um sem-fim de desejos e necessidades que levam a menina, inconscientemente, a preferir o mundo da fantasia, ou o reino dos céus, onde possa viver com seus milagres, sem despertar interesses terrenos, reais e sufocantes para sua idade e seu tempo muito breve de vida. Pois, para Nhinhinha, a morte não é o fim, não é a tragédia, é o passaporte para um mundo de libertação a alegria, realizando-se o desejo de a menina ser do outro mundo, a menina de lá... do sertão, da esperança, sonhos, da fantasia, do reino de Deus .

Prof. Marcelo Monteiro







quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Apenas um poema

Vazio 
O deixar de ser,
No momento em que todas as linhas
Do pensamento
Estejam traçadas nos caminhos
Desviados pelo destino vão,
Não no vazio dos livros de
Páginas brancas,
Ou nas canções estéreis de acordes
Inusitados
vejo estrelas mortas
legando seu brilho à eternidade
imensa e obscura dos céus,
que nos protegem do Universo impenetrável
e louco
poderei traçar as linhas que
Roubo de você?
Deixarei, como legado,
Sua beleza intensa e infinita
De seu olhar absoluto,
Miragem que perco
Nos cantos de minha mente turva
Que chora a ausência de seu olhar
Ah...insensato sentimento...
Sento-me só,
À margem do desespero,
À beira do mundo incompreensivo
De incontáveis sofrimentos e medos,
Sonhando em surgir,
Do nada,
Minha alma sufocada,
No instante em que o amor e
A esperança,
Toquem meu rosto
Na hora marcada. (anjinho)

Devaneios de Rousseau

Observei, nas vicissitudes da vida, que as épocas dos deleites mais doces e dos prazeres mais vivos não são, porém, as épocas cujas lembranças mais me atraem e me tocam. Esses breves momentos de delírio e de paixão, por mais vivos que possam ser, não passam, no entanto, por sua própria vivacidade, de pontos bastante dispersos na linha de um estado. Eles são raros e rápidos demais para se constituírem um estado, e a felicidade que meu coração sente falta não é composta por instantes fugidios, mas de um estado simplpermanente, que nada tem de intenso em si, mas cuja duração aumenta o encanto a ponto de nele por fim encontrar a suprema felicidade.
(Jean Jacques    Rousseau – trecho de “A Quinta Caminhada – de “Os Devaneios do Caminhante Solitário”)


Reflexões em Paris

Entre os anos de 1776 e 1778, os últimos da vida atribulada e iluminista de Rousseau, o filósofo realizou longas e frutíferas caminhadas ao longo das ruas de Paris e pelos arredores da cidade. Nessa jornada, Rousseau observava as pessoas, a natureza – a flora era uma de suas grandes paixões – as casas, enfim, observava e analisava o cotidiano dos habitantes locais, tornado base de seus pensamentos e conclusões.
Nessa caminhada reflexiva, Rousseau deixa a transparecer certa agonia, uma amargura pela sociedade que o criticava, provocando, nele, um isolamento, em face de seus pensamentos, de suas obras, de suas posições em relação à sociedade que o cercava.
Todo esse espírito foi retratado, em palavras diretas, em avaliações complexas e em pensamentos concisos, em “Os Devaneios do Caminhante Solitário” (Les Rêveries du Promeneur Solitaire – 1776 a 1778), um livro em que o autor se mostra sereno, tranqüilo, lírico, apesar da dureza que, em certos momentos, toma conta de suas palavras críticas à sociedade que criticava, percebendo, analisando e discutindo suas posições acerca da natureza do homem e de sua conduta no meio em que vive.
A obra, uma espécie de testamento inacabado de Rousseau, foi publicada, em 1782, após sua morte, e revela belas passagens pela vida, ilustradas em argumentos filosóficos consistentes, dentro de uma poética de um homem que se vê isolado da sociedade a qual analisa, critica, mas, ao meso tempo, busca olhar com uma réstia de esperança, analisando, ainda, de forma branda e verdadeira, seu passado e as pessoas que o condenaram à sua solidão.
Em “Devaneios do Caminhante Solitário”, Rousseau evoca, em forma de confissões e justificativas, trazendo idéias novas em relação à política, à educação, à literatura revela as novas faces do filósofo em vista da sociedade francesa e do Romantismo. As contestações das idéias de Rousseau levaram-no a escrever (1712-1778) escreveu “Os Devaneios do Caminhante Solitário” este livro, sabendo que sua existência estava por acabar, e essa perseguição partia inclusive de outros filósofos como David Hume e seus antigos companheiros de enciclopédia como D’Alembert, Helvétius, Voltaire, Montesquieu, Condillac, Quesney, Turgot Sua obra-prima, “Emílio” fora lançado à fogueira, nas ruas de Paris e calvinistas enlouquecidos apedrejaram sua Maison du Motiers, em Genebra 
“Devaneios do Caminhante Solitário”, tal qual obras como “Confissões” e “Diálogos”, foram textos publicados postumamente, revelando um filósofo que desconfiava de tudo e de todos à sua volta. Até mesmo Voltaire, a quem via como um mestre e que, como Rousseau, detestado pelo alto clero, debochou das obras românticas de Rousseau, em parte, por conta de desavenças motivadas por questões religiosas e voltadas ao teatro, citando a contradição em suas idéias, sua apologia ao primitivismo, com sua idéia de o homem natural, e pela agitação política que Rousseau teria desencadeado em Genebra, por conta de seus pensamentos filosóficos, políticos e sociais, além de acusá-lo de trair os filósofos com seus pensamentos acerca de assuntos diversos.
Sua angústia teve início com o texto “A Profissão de Fé”, publicado em “Emílio”, sobre o qual, católicos e protestantes criticavam a idéia de uma religião natural, considerando-a uma ofensa à idéia de Revelação, a Igreja e aos milagres. Por isso, seus últimos livros “Confissões”, “Diálogos” e “Devaneios do Caminhante Solitário” agem como um direito de defesa do autor. Todo esse mal é revelado pelo filósofo, já na primeira fase de seu livro, em que ele escreve: “Eis-me sozinho na Terra, sem irmão, parente próximo, amigo ou companhia a não ser eu próprio. O mais sociável e o mais afetuoso dos homens foi proscrito da sociedade por um acordo unânime.”




Rousseau escreveu:


o        Dicionário de Música,
o        A nova Heloísa,
o        Confissões,
o        Discurso sobre as ciências e as artes,
o        Discurso sobre as origens e fundamentos da desigualdade entre os homens,
o        Emílio,
o        O Contrato social,
o        Diálogos de Rousseau, juiz de Jean-Jacques,
o        Considerações sobre o governo da Polônia,
o        Devaneios de um caminhante solitário.
.








Prof. Marcelo Monteiro

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Uma Crônica de Drummond

O Amigo que Chega de Longe                

O amigo chega de longe – de há quarenta e oito anos. Está novo em folha, em sua magreza de folha. Tem o rosto marcado pelo tempo? Como se não tivesse. Os cabelos são pretos, a voz mansa e baixa, como antigamente, como sempre. Sobretudo, o modo de ser e o próprio ser não mudaram. É minha mudança que eu toco, diante de sua permanência. Então, divirto-me chamando-o de velho, por outras palavras. Invento, ao meu favor, uma absurda diferença de idades. Ele sorri e desmente sereno. Tem ao seu  lado, a memória – essa memória de espelho, a cuja superfície, as coisas bóiam com o relevo e a cor naturais. E vêm as coisas. O jogo era simples preliminar à entrada em matéria.
Entramos nela, com apetite regulado, sabendo que essa fome não passa nunca, por isso mesmo, não precisamos dar-lhe toda a corda. Para instruir-me do nosso passado comum, principalmente, de meu passado, vou puxando reminiscências por um fio fraco. E isso? E aquilo? E aquele cara – como é mesmo que se chamava aquele cara? Que, certa noite... A resposta vem precisa, sem vaidade de memorialista, e me devolve à situação antiga. Não é diálogo de mortos, de uma a outra cova. É ida ao quarto de guardados, que não se abre todos os dias.
Os guardados estão em ordem, graças a ele, que não tem fama de organizado, enquanto eu, o arquivista profissional, sinto que, por mim, a arrumação jamais se faria. Sem tristeza, os tiramos da arca, miramo-los, notamos este ou aquele pormenor que ficou precioso, considerado de perto, e, depois, voltamos a depositá-los onde dormiam. Sem tristeza, até com a miúda, reflexiva alegria dos proprietários de velhas lembranças.
Assim, conversamos na sala tranqüila. É noite, em algum lugar, desfilam escolas de samba. Mas, o amigo, de passagem pela cidade, não quis ir ver o desfile, desdenhou programas. Escolheu a noite para me, fazer-nos companhia. Pois, temos o direito de usar este pronome no singular: nós. Mas, declará-lo, seria quebrar o mistério dessa unidade. Sou eu que me visito, se ele me procura, discreto, entre longos intervalos que o correio não costuma preencher. Guarda-se para os encontros pessoais, quando o gesto, o olhar, a voz, mais do que os assuntos, fazem diálogo.
Essa constância ao meu dispor essa fixidez de raízes fundas, entretanto, não excluem um feixe de acontecimentos individuais, de que não participei, melhor diria: que me formam poupados. Ele sofreu sozinho, não o assisti. E não me traz a presença de seu combate. Recolheu de tudo o agradecimento à vida, à surpresa do milagre. A mim, só me dá o melhor, como se o melhor fosse o normal, à margem de todo esforço.
Chovendo. As vidraças molhadas dão mais aconchego à sala, protegida do rumor e do vento; chove apenas para os outros, os que não receberam o amigo, recebendo-se a si mesmos, os que vão procurar o espetáculo, satisfação vinda de fora Uma criança se aproxima, examinando o visitante. As crianças estão sempre examinando os mais velhos, avaliando-lhes a humanidade. Este saberá se comunicar, ou, é apenas um adulto a mais, sem sabor de gente? O amigo saca do bolso pequena palha de milho, o canivetinho, o naco de fumo rescendente. Preparação do cigarro: mágica pura aos olhos de menino de cidade grande. Requinte final. O pequenino laço de palha no meio do cilindro, para que ele não se desmanche se o fumante o guarda para mais tarde. Pergunta ao garoto: “Você tem fósforo?” O menino, orgulhoso, de fazer fogo, acende-lhe o cigarro de palha. Ficam amigos, á luz do pequenino círculo esbraseado. Uma luz que vem de há quarenta e oito anos.

Carlos Drummond de Andrade – de “Os Caminhos de João Brandão” (1970)